Domingo, 17 de Outubro de 2010

(Como prometido, começamos a semana de celebração do aniversário do blog com um texto de alguém que amamos muito. José dos Santos Calmeiro Matias, o nosso Pe. Santos, para quem, há exactamente três meses, foi Dia de Páscoa. Com o seu contínuo esforço de busca de novas formas de anuncir a Boa Nova, que fez dele um dos pioneiros da Evangelização online, bem como com a sua forma tão especial de ser, foi inspiração para a criação do “Grita Bem Alto” e, acima de tudo, é inspiração para fazermos da Nossa Vida uma Vida com Letra Grande…)

 

 

 

 

A Originalidade Humana...

Nascemos talhados para o encontro e a comunhão. Eis a razão pela qual a plenitude da pessoa não está em si, mas na comunhão com os outros. O ser humano está a realizar-se em duas dimensões: a exterior ou eu individual e a interior que é o eu pessoal-espiritual. A nossa interioridade espiritual emerge no íntimo do ser individual como o pintainho dentro do ovo.


Virá um dia em que a casca do ovo vai rebentar e o pintainho nasce para a comunhão universal. A morte é este rebentamento da casca do ovo, condição para que o pintainho possa atingir a sua plenitude na Comunhão Universal do Reino de Deus. Nesta comunhão cada pessoa é um ponto de encontro que nos ajuda a entrar em comunhão com a Humanidade e a Divindade. É como um “hiperligação” através do qual podemos conectar com Deus e o Homem. A maneira correcta de abrir este “hiperligação” é abeirar-nos dele com respeito pela sua dignidade de pessoa humana e venerando nele a sua condição de filho amado de Deus. O drama está quando o “hiperligação” se enrosca sobre si mesmo. Neste caso, deixa de ser uma mediação para, através dele, encontrarmos Deus e o Homem.


Nascemos para renascer. Na verdade, o ser humano emerge como pessoa capaz de encontro e comunhão. À medida que emerge, a pessoa converge para a comunhão universal do Reino de Deus. A nossa interioridade pessoal emerge chamada à comunhão e com a densidade da vida eterna. Na verdade, a plenitude humana não acontece nas pessoas isoladas, mas na comunhão orgânica da Humanidade. Eis a razão pela qual só existe uma Humanidade, apesar de serem biliões as pessoas que a constituem. Do mesmo modo, Deus é apenas um, apesar de ser uma comunhão de três pessoas. Reduzida a si e separada da dinâmica da comunhão, a pessoa está estado de perdição. Isto quer dizer que apenas em contexto de relações as pessoas se possuem e encontram a sua plena identidade. Reduzida a si e privada da comunhão, a pessoa fica em estado de inferno.

 

Vencendo a Lei da Morte...


Seremos tanto mais pessoas realizadas quanto mais os outros tiverem lugar no nosso coração. Na verdade, a pessoa tem a capacidade de eleger os outros como irmãos, para lá dos laços da carne e do sangue. O Espírito Santo é a ternura maternal que anima as relações familiares entre Deus e o Homem. Foi esta a razão pela qual o Filho de Deus encarnou pelo Espírito Santo, a fim de sermos incorporados na Família Divina. É verdade que as pessoas humanas não são iguais às divinas em densidade espiritual e capacidade de interacção amorosa, mas são-lhe proporcionais. É por esta razão que pode acontecer comunhão entre o melhor de Deus e o melhor do Homem.


A nossa identidade pessoal é histórica. Não nascemos feitos ou acabados. O nosso ser exterior mede-se por quilos, densidade das nossas emoções e afectos. Por outras palavras, o homem exterior mede-se pelo ter. O interior, como é espiritual, mede-se pela capacidade de amar e comungar. Na verdade, a pessoa não vale pelo que tem mas pelo que é. A nossa identidade definitiva é espiritual e eterna. A nossa identidade exterior é genética (ADN) e acaba no cemitério. A nossa identidade interior é espiritual é espiritual e consiste no nosso jeito de amar. De facto, dançaremos eternamente o ritmo do amor com o jeito que tenhamos adquirido na história. Com efeito, nascemos para emergir como pessoas livres, conscientes, responsáveis e capazes de amar.


A plenitude da Humanidade acontece mediante a assunção na comunhão divina da Santíssima Trindade. Apenas a nossa interioridade pessoal, por ser espiritual, pertence à esfera da transcendência. Isto quer dizer que o sentido mais profundo da existência humana não é apenas prolongar a vida mortal, mas construir a vida imortal. Dos pais recebemos a vida exterior, isto é, o nível biológico e psíquico do nosso ser.


Por isso temos de renascer de novo pelo Espírito Santo, diz o evangelho de São João, a fim de tomarmos parte na plenitude de Deus (Jo 3, 3-6). Na medida em que a nossa interioridade espiritual emerge, passamos a pertencer à galáxia da vida personificada, cujo coração é a comunhão familiar da Santíssima Trindade. O nosso ser exterior acaba no silêncio da solidão cósmica, tal como as plantas ou animais após a morte. O nosso ser interior, pelo contrário, está chamado à plenitude amorosa da Comunhão Universal. É neste núcleo pessoal e espiritual que habita o Espírito Santo como num Templo, diz São Paulo. A Carta aos Romanos diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Construir a Vida com Sentido...


O animal gosta de brincar, mas não é capaz de celebrar, nem tem sentidos para viver. A pessoa humana, pelo contrário, precisa de sentidos para viver e se construir. Por estar a estruturar-se como ser histórico, a pessoa tem a capacidade de associar o passado com o presente e este com planos e sonhos de futuro. Como ser em construção, a pessoa sente-se a caminho de uma meta que se confirma em cada realização que vai concretizando. Por não ser uma pessoa em construção, o animal não tem esta consciência existencial, nem sente um apelo a actuar de acordo com uma série de valores.


Os valores são inscritos na consciência humana em forma de apelos ou convites a agir de modo a que a pessoa se edifique como ser consciente, livre, responsável e capaz de amar. Como precisa de sentidos para viver, a pessoa põe-se constantemente interrogações e porquês, sobretudo nos momentos mais sérios da vida. Quando uma pessoa perde os sentidos básicos da vida, deixa de ter razões para viver. O animal não se põe o sentido da vida como não tem consciência da sua morte.


A questão de Deus pôs-se de maneira irreversível à consciência humana. Na verdade, a consciência universal da Humanidade evoluiu no sentido de se colocar de modo irreversível a questão religiosa. Isto significa que o Homem, no seu todo, intuiu que não estamos a edificar para a morte. À luz da fé cristã, Jesus Cristo trouxe a grande resposta a estas interrogações básicas do Homem. A sua Ressurreição demonstrou aos homens que a morte não é o ponto final da vida e que os seres humanos não estão a caminhar para o vazio da morte. Isto quer dizer que os seres humanos, ao darem o salto de qualidade para a vida pessoal, atingindo as condições para serem assumidos na Família de Deus.

 

Em Comunhão Convosco

Calmeiro Matias



publicado por Micaela Madureira às 14:53 | link do post

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