Domingo, 11 de Abril de 2010

Papá:

 

Ontem, através do texto "Parar para ver", que a Luísa já aqui pôs, convidaste-me a parar.

 

Perguntei-me, então, para que me convidavas a parar.

A primeira resposta, a institiva, aquela que resultava clara e imediata, foi que me convidavas a parar para ver. Sim, convidavas-me a ver todas as pequenas coisas que estivessem no meu caminho.

Simbolicamente, vim a olhar pela janela e a reparar no que se encontrava escrito nos sítios por onde passava.

 

Então, encontrei:

 

- Um anúncio de um azeite, creio que Oliveira da Serra, que dizia algo fantástico como "Porquê ser menos do que pode ser?"

 

- Escrito em vários lados: Só Jesus salva. Muito provavelmente, quem o escreveu podia nem pensar na Salvação como a entendo e ter de Jesus uma imagem bem diferente da minha. Agora, que "Só Jesus salva", só Ele tem, como dizia Pedro, palavras de Vida Eterna, disso não tenho dúvidas.

 

- Ao passarmos por uma cooperativa agrícola, vi uma tabuleta que, não sei porquê, mas muito provavelmente porque estava atenta, me fez sentir chamada por Deus, chamada a dar as minhas mãos, os meus pés, a minha boca e todo o meu ser, Àquele que nunca desiste de querer precisar de nós na obra da Criação. Dizia assim: "Aceitam-se trabalhadores.".

 

Quando chegamos a Mira, Papá, senti que a lógica, sem que eu percebesse bem como, nem porquê, se estava a transformar. De repente, descobri que  que era muito bom se pudesses ser Tu a conduzir a nossa dança. O que tenho que fazer para que assim seja? Deixar que assim seja, pois claro.

 

Sim, Papá, às vezes quero ser eu a conduzir a nossa dança. É mais cómodo, não me põe em causa. É verdade que também não me faz chegar longe, nem me enche a cara com um sorriso brilhante, mas...

 

Então, fui percebendo que era altura de voltar às origens. Sinto uma vontade irresistível de reavivar as memórias.

Pensando bem, esta é uma lógica que já tem estado muito na vida nos últimos meses, só que tem andado, muitas vezes, apenas pela epiderme da vida, que é importante, mas que não chega. Tenho ido lá atrás, não como quem mexe num baú bolorento e volta a pôr lá tudo, mas como quem quer encarar-se de frente, com virtudes e defeitos, com caminhos e descaminhos, e dizer: esta sou eu, este é o caminho que me trouxe aqui. Não o rejeito, nem o nego, mas cabe-me, hoje, aqui e agora, superá-lo. Sinteticamente, Papá, diria que é algo como o Zé escreveu no nosso símbolo deste Retiro: "Não te esqueças de quem és."

 

Já hoje, ao pensar nisto e ao ouvir o Rui Santiago falar dos dois inícios dos discípulos, do "Eram duas vezes...", isto fez ainda mais sentido. Os Evangelhos não escamotearam os tropeções e os descaminhos dos discípulos. Não. Eles continuaram a ser o que eram, mas de uma forma nova. No fundo, é o mesmo Mistério do Ressuscitado que é o Mesmo, sem deixar de ser de outra forma...

 

Papá, quero reconstruir a nossa história. Sei que, ao fazê-lo, não percorreremos os mesmos trilhos, mas descobriremos novos encantos. Sei também, com uma certeza que abrasa, que não o faremos sozinhos. Será um caminho a partilhar com todos os irmãos que puseste ao meu lado.

 

Voltando atrás, ainda no trajecto Porto-Mira, apercebo-me que já era esta a lógica de reavivar memórias que me acompanhava. Não foi, de certeza, por acaso que a primeira lembrança que o texto "Parar para ver" provocou em mim foi a de Zaqueu. Senti-me transportada para quase 7 anos atrás, para a véspera da minha Confirmação, e foi como se voltasse a ouvir maravilhada que Zaqueu correu à frente da multidão e subiu a um sicómoro para o ver. Sim, Papá, ele agitou-se e agiu para ver Jesus. No entanto, no fim de contas, só quando parou e a acção "passou para o lado de lá" é que verdadeiramente algo aconteceu.

 

Estive a pensar e, se tivesse de contar essa história, seria mais ou menos assim:

 

Era uma vez Zaqueu, cheio de impaciência, de pressas e de vontade de conseguir por ele aquilo que queria.

Zaqueu já tinha ouvido falar de Jesus. Agora, queria olhar para Ele, para saber se aquilo que lhe tinham dito era verdade.

Então, foi e, correndo, correndo, correndo, tentou encontrá-Lo. Só que não conseguia ainda assim. Por isso, subiu a uma árvore e esperou.

 

Aí, chegou Jesus. Olhou-o e viu-o. Com o Seu Amor estampado no olhar, tocou-o por dentro e recriou-o.

 

Bem, é verdade que procurava encontrar-Te ao jeito dele, mas, ao menos, não ficou preso à lógica das multidões...Que eu consiga sair da multidão, para que Tu me possas VER, Papá!

 

 

Sim, Papá, também eu, muitas vezes, quero chegar a Ti à minha maneira.

Esqueço-me que nunca serei eu a chegar a Ti, mas serás sempre Tu a chegar a mim. Esqueço-me do valor da espera. Esqueço-me que, Contigo, a espera nunca pode ser desesperante, porque Tu sais sempre ao nosso encontro. Ainda venho a meio do caminho de volta e já Tu te lançaste a correr, me tomaste nos braços, rodopiaste até ficar tonta, me disseste mil vezes ao ouvido que me amas e mandaste preparar festa, festa e festas. Não resistes não é, Papá?

 

Obrigada, por seres um Deus não desistente!

 

Obrigada, pelos dois "letreiros" que levo hoje "colados" a mim:

 

"Não voltarás a recair na escravidão."

 

"Não esqueças."

 

Só que os "letreiros" em si não valem nada. Só valerão se se transformarem em critérios válidos para viver (e até para morrer) e em opções concretas.

 

Sabes, Papá, meu Senhor e meu Dono, eles valem se eu Te deixar conduzir. É este o único pedido que tenho para Ti: por favor, conduz Tu a dança.

 

Obrigada, Papá, por este coração acelerado, que queria gritar, gritar, gritar ao mundo que Tu és o Meu Senhor e o Meu Dono. Tu és o único capaz de dar Sentido à minha Vida...Tu és!

 

Amo-Te tanto, Papá. Tanto, tanto, tanto... Faz com que a minha Vida seja sinal disso. Não me deixes ficar pelas palavras. Não deixas, não? Por favor...Bate todos os dias à porta e diz-me: eu vi-te.

 

 

P.S. Papá, este post foi escrito três vezes. Uma primeira em papel. Uma segunda, muito alterada, já no blog. Uma terceira aqui, porque a anterior não ficou gravada. Foi uma maneira bonita de Me dizeres que é tempo de reescrevermos a nossa história de Amor, não foi? É tempo de Memorial. Vai ser tão bom fazermo-lo juntos!

 

P.S. 2: Há por aqui uns quantos: "Sim, Papá". Que bom era que nem fosse preciso esse "Sim, Papá", para me levantar e seguir-Te...

 

P.S. 3: Este é, sem dúvida, o post mais estranho que já escrevi. Como dizia na oração de ontem à noite, é como quando recebi um puzzle em que muitas peças tinham a mesma cor. Ao princípio, ficou todo torto, mas houve quem me guiasse a desmontá-lo e a arrumá-lo. Primeiro fica cá uma confusão...Mas depois as peças vão encaixando...É tão bom saber que nunca as encaixarás por mim, mas me guiarás a fazê-lo. É tão saber que não desistes de contar comigo! Ainda há lugar para mim como Tua discípula, apesar de todas as infidelidades e descaminhos, porque Tu és Amor não desistente e Perdão que nada cobra! Comigo como com os primeiros...Comigo como com os primeiros, Papá!

 


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publicado por Micaela Madureira às 11:02 | link do post | comentar

1 comentário:
De Rui Cunha a 12 de Abril de 2010 às 14:49
Olá Micaela,
Como eu dizia, "transforma o meu oco em eco". Podes acreditar que muito do meu actual eco, ex-oco, foi transformado por ti, pelas tuas partilhas, pelas tuas acções.
Agradeço-te por seres mediação de Deus.
Agradeço-te porque, como dizia de Deus em "O Segredo de Benjamim", também tu estás sempre a meu lado.
Obrigado pela tua partilha que, com 100% de certeza, também é eco de Deus e da Sua Palavra...
OBRIGADO...


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